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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Moradores de Viana (MA) negam origem indígena de feridos em confronto


  • Carlos Augusto Nascimento, caseiro de uma das propriedades que autodeclarados índios gamelas tentaram retomar na comunidade de Viana (MA)
A repercussão da violência no confronto entre indígenas e moradores da zona rural de Viana (a 220 km de São Luís), no último dia 30, levantou um debate entre moradores na cidade: quem são esses indígenas que teriam surgido do nada e que são desconhecidos na região?
Durante dois dias, a reportagem andou por comunidades e ouviu dezenas de moradores da área pleiteada pelos indígenas. Todos afirmaram que não conheciam nem tinham notícias de ocupação indígena no município há pelo menos dois séculos. 
A disputa pela terra atinge antigos moradores de povoados, que têm a posse das terras. Essa área, porém, seria pertencente aos índios gamelas, que teriam recebido a doação da Coroa Portuguesa, ainda em 1759. Os índios, dizem moradores, deixaram de viver em tribos e se integraram à cidade desde pelo menos o século 19.
Inaldo Gamela, autodeclarado da etnia gamela e um dos que buscam a posse de terras que seriam dos índios
São raras as propriedades com mais de dez hectares. Também não há casas ou construções luxuosas –pelo contrário, são imóveis normalmente pequenos, alguns de taipa. 
Hoje, os gamelas não são registrados na lista de povos pela Funai (Fundação Nacional do Índio) e não têm terras demarcadas ou mesmo em estudo pela União. Apenas no ano passado houve um pedido oficial para realizar estudos antropológicos e dar início a uma demarcação.

Moradora mais antiga diz que ‘nunca ouviu falar’ em índio

Maria de Lourdes Borges, 81, a mais antiga moradora da região de Viana: “Nunca ouvi falar de índio aqui”
Entre moradores da zona rural de Viana, a grande adesão de autodeclarações indígenas é considerada uma “seita”. “Só pode ser coisa do demônio isso. Não tem explicação como é que gente daqui, que se criou conosco, que todo mundo conhece, de uma hora para outra larga tudo para dizer que é índio e viver tomando terra. Muitos deles têm terreno já. Acredito que acham que podem ganhar novas terras”, disse um morador que pediu para não ser identificado nem fotografado.Eles contam que os habitantes das comunidades passaram a ser cooptados para que se declarassem índios e passassem a lutar pelo direito à terra. A maioria recusou, mas alguns posseiros e trabalhadores acabaram aceitando.
“Esses anos todos que estou aqui nunca ouvi falar em índio aqui. Esses que se dizem agora são moradores daqui, civilizados, não têm nada de indígena. É invenção deles”, conta.
Mariano Borges conta que estudou com muitos dos que agora se intitulam índios. “Conheço tudinho, não tem nenhum ali que seja índio”

Aldeias mistas

Os cerca de 1.400 autodeclarados indígenas pedem o direito a posse de 14 mil hectares de terra que cortam três municípios maranhenses: Viana, Matinha e Penalva. Nessas terras há pelo menos 42 comunidades formadas, em sua maioria, por não indígenas.
Os gamelas afirmam não possuir um líder e vivem espalhados em dez das 42 comunidades –sendo quatro delas só com integrantes da etnia. Os que passaram pelo confronto estão na aldeia Cajueiro Piraí –que na verdade é uma grande casa de uma das quatro propriedades “retomadas” e que têm processo de reintegração judicial tramitando na Justiça Federal de São Luís.
Quando questionado do porquê da demora em buscar o direito à terra, outro líder, Francisco Jansen Gamela, disse: “Isso não posso responder”.

Funai explica critérios para ser considerado índio

Segundo Bruno de Lima e Silva, da Funai maranhense, que está em Viana para acompanhar o caso, a pré-fase de qualificação da etnia foi concluída em julho do ano passado. Agora, é necessária a criação de um grupo de trabalho para que antropólogos e pesquisadores investiguem o caso.
Porém, para serem reconhecidos, são necessários três elementos: a autodeclaração, o reconhecimento de outras tribos e a historicidade. “Quanto à historicidade não há o que contestar”, diz Daiane Veras, técnica da Funai que também está acompanhando os índios em Viana.
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